terça-feira, 21 de julho de 2009

Mundo Moderno

Silvio Amarante

Mundo moderno, marco malévolo, mesclando mentiras, modificando maneiras, mascarando maracutaias, majestoso manicômio. Meu monólogo mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres, miscigenação, morticínio – maior maldade mundial.
Madrugada, matuto magro, macrocéfalo, mastiga média morna. Monta matungo malhado munindo machado, martelo, mochila murcha, margeia mata maior. Manhãzinha, move moinho, moendo macaxeira, mandioca. Meio-dia mata marreco, manjar melhorzinho. Meia-noite, mima mulherzinha mimosa, Maria morena, momento maravilha, motivação mútua, mas monocórdia mesmice. Muitos migram, macilentos, maltrapilhos. Morarão modestamente, malocas metropolitanas, mocambos miseráveis. Menos moral, menos mantimentos, mais menosprezo. Metade morre.
Mundo maligno, misturando mendigos maltratados, menores metralhados, militares mandões, meretrizes, maratonas, mocinhas, meras meninas, mariposas mortificando-se moralmente, modestas moças maculadas, mercenárias mulheres marcadas. Mundo medíocre. Milionários montam mansões magníficas: melhor mármore, mobília mirabolante, máxima megalomania, mordomo, Mercedes, motorista, mãos… Magnatas manobrando milhões, mas maioria morre minguando. Moradia meia-água, menos, marquise.
Mundo maluco, máquina mortífera. Mundo moderno, melhore. Melhore mais, melhore muito, melhore mesmo. Merecemos. Maldito mundo moderno, mundinho merda.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Justiça Social

João Alexandre

A gente não precisa ser milionário
A gente só quer um justo salário
A gente tem que levar fé no trabalho aqui
A gente não precisa criar quizumba
A gente quer sinceridade profunda
Alguém vai ter que por moral nessa casa aqui
Se deu muito feijão, falta no prato
Se deu muita batata, cadê o ensopado?
Queremos a fatia de um bolo que a gente fez!
É só distribuir a coisa direito
E repartir o lucro também com o sujeito
Que quase se suicida no fim do mês.
É hora de se procurar a saída
Todo esse egoísmo acaba com a vida
Quem dera que a gente ouvisse o que Cristo diz...
É hora de procurar o que Cristo diz.

Pra cima Brasil

João Alexandre

Como será o futuro do nosso país?
Surge a pergunta no olhar e na alma do povo.
Cada vez mais cresce a fome nas ruas, nos morros,
Cada vez menos dinheiro pra sobreviver.
Onde andará a justiça outrora perdida?
Some a resposta na voz e na vez de quem manda.
Homens com tanto poder e nenhum coração,
gente que compra e que vende a moral da nação.
Brasil olha pra cima, existe uma chance de ser novamente feliz!
Brasil há uma esperança!Volta teus olhos pra Deus, Justo Juiz!
Como será o futuro do nosso país?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Soprando no Vento...

Blowin' In The Wind
Bob Dylan

Quantas estradas um homem precisará percorrer antes que venha a ser chamado de homem?Quantos mares precisará uma pomba branca sobrevoar antes que ela possa repousar na areia? E por quantas vezes ainda as balas de canhão voarão até serem para sempre banidas?
A resposta meu amigo está soprando no vento, a resposta está soprando no vento...
Quantos anos deve uma montanha existir antes que se desmanche no mar?
Quantos anos devem algumas pessoas existir até que sejam permitidas a serem livres?
E quantas vezes pode um homem virar sua cabeça e fingir que ele simplesmente não vê?
A resposta meu amigo está soprando no vento, a resposta está soprando no vento...
Quantas vezes deve um homem olhar para cima antes que possa enxergar o céu?
Quantos ouvidos deve um homem possuir até que ele possa ouvir o lamento do próximo?
E quantas mortes ainda serão necessárias até que perceba que pessoas demais morreram?
A resposta meu amigo está soprando no ventoA resposta está soprando no vento...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O TROTE DA SOBREVIVENCIA

Antonio Roberto de Paula

Primeiro é o trote e depois o forte som do tampão da lixeira abrindo. Eles chegam por volta das 10 e meia da noite. No começo, a gente estranhava e botava a cara na janela para ver o que estava acontecendo. O horário é propicio, pois eles se antecipam aos madrugadores e aos caminhões de lixo da prefeitura.
E é quase sempre assim: a mãe, e os filhos, de nove e sete anos, talvez um pouco mais, descem da carroça puxada por uma égua cansada. Papelões tomam quase todo espaço da carroça. Devem ter feito uma formidável via-sacra para conseguir tanto papel. Esta deve ser uma das ultimas lixeiras para ser vistoriadas porque o pobre animal dá a impressão que não vai suportar nem mais uma folha. O peso da carga e a maratona trotando o asfalto o deixaram entregue.
O garoto maior joga quase todo o corpo no container para tirar o papelão e passa para o menor, que vai dobrando e entregando para sua mãe, que se encarrega de se ajeitar a pilha. Serviço encerrado, eles sobem na carroça e seguem lentamente na penumbra depois de mais um domino cumprido. Como trilha sonora, o sofrido trote.
Poderia dizer que a miséria desfila em frente a nossa porta enquanto fazemos ouvidos moucos e olhares oblíquos ou enveredar pelo vão da revolta por ver crianças na noite revirando lixo na busca do sustento. Poderia tentar ser poeta ou panfletário, pois as duas formas são necessárias para reforçar a indignação.
Há outra via: admirar a força de uma mulher e duas crianças. Eles sabem, dentro de uma complexidade que os coloca na parte mais fraca da corda, que é preciso ir a luta com as armas possíveis. Neste caso, as armas possíveis são uma égua, uma carroça e as centenas de lixeiras espalhadas na cidade. E se assim lutam é porque confiam que o futuro, mesmo incerto, distante, nebuloso, vai lhes dar ferramentas bem melhores.
Existe um ativo, vibrante e participativo que não compreendemos dentro deste mundo indigno formado por gente digna. Dias destes, depois do serviço terminado, um outro menino catador, desceu de sua carroça e se sentou no meio-fio para comer. Depois de umas garfadas, se levantou e pôs a marmita na boca do cavalo, que arrematou o restante.
Que gesto! Forte o bastante para que concluísse que esse foi o maior exemplo de amizade entre uma pessoa e um animal. Mas, só foi isso? Ou tudo isso? Deixando a tristeza e outros sentimentos recorrentes de lado, fico imaginando se não foi tão somente mais uma cena comum de parceria pela sobrevivência. O menino é quem sabe.

( Antonio Roberto de Paula )

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Sobre a morte e o morrer

Rubem Alves

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”
Dona Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”
Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética. Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3.

sexta-feira, 20 de março de 2009

O deus que não é Deus

Ricardo Gondim

Existe um deus que não é Deus. O único com força para enfrentar a Deus. Essse deus não vive em alguma dimensão cósmica ou ponto do universo. Seu oratório é a mente humana. Ele é um deus familiar, pois vive nos espelhos da alma. Mesquinho, cobra desempenhos impossíveis. Inclemente, castiga as inadequações dos fracos com fúria. Ofendido por uma pessoa, dizima gerações inteiras. Imprevisível, age com um humor indetectável.
Existe um deus que não é Deus. Capaz de ofuscar o próprio Deus, misturou-se em todas as religiões. Sanguinário, exige sacrifício para estender a sua compaixão. Impassivo, privilegia os eleitos e condena o resto. Indiferente, descarta a prece da criança quando não se encaixa em seus propósitos. Distante, volta as costas para os miseráveis em nome da coerência.
Existe um deus que não é Deus. É possível encontrá-lo nos paços sacerdotais, nas leis canônicas, nas teologias que o sistematizaram. Ele vingou na religião e a cúrias já mapearam as suas ações. Sem bondade, ele defende a virtude. Sem graça, faz apologia da verdade. Os cristão sabem que ele existe; já provaram o fel de sua justiça na Inquisição. O homem-bomba de hoje testemunha o seu furor para os muçulmanos. Ele aparece em cada campanha de oração pentecostal para mostrar como é difícil ganhar o seu favor.
Existe um deus que não é Deus. Ele é uma divindade que não suporta ver Jesus almoçando com pecadores, bebendo vinho perto de mulheres suspeitas, elogiando pagãos ou prometendo o Paraíso para gatunos. Esse deus precisa desaparecer, pois é um ídolo malvado. E só com a sua morte nascerá o Salvador.