terça-feira, 10 de abril de 2012

Ovelha, moeda e filho...quem dá mais?

Em conversa com um amigo, por sinal bom pregador, discutíamos a relação entre as três parábolas de Lucas 15, a saber: ovelha perdida, moeda perdida e filho perdido. Nossa fala era envolvida pela questão da hermenêutica. Lembrávamos de Lutero, da Bíblia na mão no povo e etc. Infelizmente muitos traduziram essa revolução como “o povo tem o poder de interpretar o que o texto diz”. Bem, subjetivamente sim; o protestantismo trouxe essa possibilidade, contudo, sem uma percepção crítica e conhecimento dos originais (língua e etc), impossível.

Nossa interrogação era sobre o irmão do filho perdido. O que fazer com ele? Na parábola da ovelha, há uma festa e todos festejam; quando a mulher encontra sua moeda, todas festejam; quando o filho torna para casa, o irmão não festeja.

Conclusão: as três parábolas são contadas por causa desse irmão.

Se quisermos entender melhor, basta olharmos quem está do outro lado da calçada: os fariseus. Gente que festeja a salvação da ovelha e da moeda, menos do ser humano.

Jesus é categórico ao dizer que a festa e a beleza da vida devem ser prioridade. Ele nem cita o céu na terceira parábola. Não é, nem de longe, tão espiritual como as duas primeiras. As duas primeiras contam como diversão para fariseu. É do filho, do pai, da fazenda, de ritos como anel e sandália de que Jesus trata. E é do trato com a terra, com o humano, com valores além da religião, além da lei: o amor – não há lei contra o amor.

Minha sensação é que a igreja tem tomado rumos periclitantes. Festeja apenas a ovelha e a moeda enquanto o filho sujo padece.

Sim, você pode dizer que minha hermenêutica bíblica é falha. Tudo bem. Mas dizer que minha percepção do que se tem feito com o filho sujo é equivocada, seria uma baita injustiça.

Porque a ovelha é domínio de posse. Porque a moeda é domínio de posse. O ser humano não se encaixa nesse quesito (a menos que ele queira - e a própria igreja é prova do que digo). E quando a igreja quer dominá-lo como posse da instituição (isto é, dos próprios igrejados), o trata como tal enquanto desfalece o pobre moço na tentativa de voltar a pertencer e encontrar sentido numa “boa casa”.

Na visão comercial/eclesial, ele não merece como a ovelha merece. Até porque, quando a ovelha “desobedece” (desculpem o termo), quebra-se a perna e a leva nos ombros para não ter prejuízo maior; quando a moeda é perdida, varre-se a casa, acende a lamparina e só depois convida as amigas para festejar (Vai que são chamadas para ajudar e a que encontra reclama para si a sorte e a moeda? Deus me livre! Seria um prejuízo!); mas quando o homem se suja ninguém tem o poder de dizer: “não faça porque você me pertence”. Porque ele pode. Pode tudo. Ir e vir. É direito dele. Não se pode lucrar tão desonestamente (embora minha afirmativa seja utópica).

Minhas dores mancham o texto só para reclamar a ausência do amor nosso, da ausência da festa ao pródigo de que não podemos possuir – que é o outro, por sua vez, livre de nós e da religião que passamos a ser pólos-quase-humanos institucionalizados ao invés de gente-igreja, empresa ao invés de igreja-gente, renda ao invés de gente-gente.

Não sei até quando isso vai durar. Não sei como isso irá explodir ou quem sabe implodir (menos provável). O ideal era que se fizesse exames médicos periódicos, psicanálise, acompanhado sempre de altas doses de boa sociologia e música lírica para ver se ainda há alguma alma escondida nesse ser humano que se diz igrejado.

NA GRAÇA
LELLIS

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O tempo

Mário Quintana

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

sábado, 22 de outubro de 2011

Alguém como eu

Alguém como Eu
Stênio Március

Entra Mestre,descansa um pouco
Estás cansado,estás sedento e rouco
Dorme Mestre, a casa é Tua
Já fechei porta e janela pra rua

Deixou me falando só
Dormiu tão pesado fazia dó
Como será Mestre este sonho Teu?
Sonhas como homem?
Sonhas como Deus?
Sonhas com a glória que tinhas com o Pai, na luz?
Ou sonhas com a cruz?

Perdoa Mestre, mas já é hora
Uma multidão te espera lá fora
Estás decidido, não te detenho
Vais curando até chegar ao lenho

Partiu,fica a paz em mim,
Fica sala com cheiro de jasmim
Vai verter a vida do corpo Seu,
Pra levar a culpa de alguém como eu,
Pra lavar o sujo do meu próprio eu,
Levar-me puro a Deus.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Evaporar

Rodrigo Amarante

Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar

Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar

O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar foi o que ganhei
E ando ainda atrás desse tempo ter
Pude não correr pra ele me encontrar
Não se mexer
Beija-flor no ar

O rio fica lá, a água é que correu
Chega na maré, ele vira mar
Como se morrer fosse desaguar
Derramar no céu, se purificar
Deixar pra trás sais e minerais
Evaporar

Como é difícil pensar fora da caixa

Ricardo Gondim

Os mais idosos ganham certos direitos com a idade. Não precisam esperar em filas, têm desconto nas bilheterias dos teatros e, no Brasil, não pagam passagem de ônibus. Envelhecer tem outras vantagens menos óbvias. Os mais experientes ganham o privilégio, por exemplo, de se zangarem. Permitimos que reclamem dos barulhos inconvenientes, de casa mal arrumada e de outros detalhes que chateiam.Estou longe de tornar-me um velho, mas já reivindico pelo menos um privilégio: quero o direito de me aborrecer com pessoas preguiçosas para pensar. Descobri também um horror: o universo dos indolentes mentais é muito maior do que jamais imaginei. Dou exemplo. Um aluno de teologia visitou meu site e mandou a seguinte mensagem:
“Ricardo, meu professor advertiu-me que você vem escrevendo muitas heresias e que eu devo fugir de sua influência perniciosa. O que você tem a me dizer? É verdade”?
Confesso que meu sangue cearense, “cabra da peste”, ferveu. Tive vontade de jogar qualquer escrúpulo às favas, vestir o uniforme de idoso, e responder ao noviço: “Senhor bobão, você acabou de acessar um site com centenas de textos que escrevi nos últimos quatro ou cinco anos. Por que não se dar ao trabalho de ler e tirar, por você mesmo, algumas conclusões?”. Imaginei que feriria a sensível piedade do jovem. Apaguei a mensagem, contei até dez e não respondi nada. Mas fiquei remoendo, com vontade de escrever uma única frase: “Realmente, não parece justo que haja tanto empecilho para a liberdade e que seja tão fácil aceitar cabrestos”. Pensar não é difícil. Pode ser perigoso, mas não é complicado; pode ser trabalhoso, mas não é proibido. Prefiro correr o risco de me expor às ameaças de um grupo que me rotula como herege peçonhento a ser encabrestado por um mestre obtuso e preconceituoso. É muito mais digno ter opinião própria do que regurgitar preconceitos mal digeridos por alguém. A religião tenta preservar-se. Para isso, cria “guantánamos”. Os “Galileus”, que ousam afirmar suas constatações, são odiados por sacerdotes até que se retratem.
Quando alguém se arrisca e pisa fora do quadrado, é caçado, como João Huss que não se conformou com as viseiras farisaicas que lhe foram dadas. Alguns, como Martin Luther King, que não se curvou ao status quo, precisam sumir.A religião de certezas não tolera uma espiritualidade que aceite quaisquer incertezas. O fariseu precisa de sistemas herméticos para que sua opinião permaneça. Na base da certeza religiosa está a escassez de diálogo. Merecem castigo os que se abrirem à verdade que não consta nos autos de fé. Diante do dogmatismo, quem se atreve a pedir explicações ganha o exílio.A elite eclesiástica rotula de apóstata quem tenta olhar por cima das cercas dadas. Ela acha danoso ver se há vida fora do seu pequeno catecismo. Ao religioso não interessa defender o livre pensar. Melhor criar um ambiente de ojeriza aos “rebeldes” para que se duvide o que eles afirmam antes de mesmo de ser dito. Lamentavelmente, o problema não vem só do censor. Nem todos gostam da liberdade, alguns preferem a canga, o jugo do espírito de manada; cabisbaixos, obedecem, odeiam, rejeitam, sem questionar. Há momentos em que as prerrogativas do velho me dão vontade de gritar: “Pense, amigo. Por favor, pense!". Outras vezes fico piedoso e quero, de joelhos, implorar: “Meu irmão, leia; busque adquirir a maior riqueza que alguém pode possuir: o bom senso”.Acho que já tenho idade de confessar nervosismo com gente que se deixou massificar pelo ambiente religioso. Aprendi na internet o hashtag #faleiepronto; então, vai lá o meu: "Não suporto mais conversar com pessoas que se contentam em repetir jargões e não têm coragem de assumir todas as consequências do que acabaram de dizer".Mesmo que fique cada dia mais complicado ler mensagens iguais às que recebi do jovem seminarista, estou decidido: vou continuar. Repartirei ideias, percepções e sentimentos que me são caros. Meu único desejo é contribuir com nossa humanização.
E que Deus me ajude!
Soli Deo Gloria

segunda-feira, 28 de março de 2011

Tudo é Vaidade

João Alexandre

Vaidade no comprimento da saia, no cumprimento da lei
Vaidade exigindo prosperidade por ser o filho do Rei
Vaidade se achando a igreja da história
Vaidade pentecostal
Vivendo e correndo atrás do vento, tudo é vaidade
Vaidade juntando a fé e a vergonha Chamando todos de irmãos
Vaidade de quem esconde a verdade Por ter o povo nas mãos
Vaidade buscando Deus em si mesmo Querendo fugir da cruz
Não crendo e sofrendo, perdendo tempo Tudo é vaidade
Falsos chamados apostulados do lado oposto da fé
Dinheiro, saúde, felicidade aquele que tem contra aquele que é
Rádios, tvs, auditórios lotados ouvindo o evangelho da marcha ré
A morte se esconde atrás dos templos Tudo é vaidade
AONDE ESTÁ A HONRA DOS ORGULHOSOS,
A SABEDORIA MORA COM GENTE HUMILDE
LIBERDADE LIBERDADE.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ali mora o amor...

Heber de Paula


Ali mora o amor...onde ninguém imagina,
não é no jardim onde há rosas, não é
no quintal onde há flores, onde há muitas cores
não é aí não.
Na casa do amor as paredes precisam de um retoque,
o jardim está meio sem flores (elas sempre murcham),
o telhado tem goteiras quando chove, os móveis
já estão meio sem brilho e com poeira...
Mas, a mesa, de madeira maciça, está sempre cheia.
No café é uma alegria, todo mundo comendo broa e conversando,
pão e leite, fruta e queijo, sorrisos e olhares.
No almoço e jantar a alegria é compartilhar, sorrir e falar...
a geladeira, ainda que velha, conserva muito bem
tudo o que precisa ser conservado - sentimentos e gratidão,
reconhecimento e entrega, sinceridade e desejo de lutar -
Os lençóis limpinhos e cheirosos, bordados à mão, forram as
camas e nos cobrem do frio...quem passa de fora e olha
não consegue ver, na casa do amor só quem mora sente e sabe o que é importante.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

DOIS BARCOS

Marcelo Camelo

Quem bater primeiro a dobra do mar
Dá de lá bandeira qualquer, aponta pra fé
E rema

É, pode ser que a maré não vire
Pode ser do vento vir contra o cais
E se já não sinto teus sinais
Pode ser da vida acostumar
Será, Morena?
Sobre estar só, eu sei
nos mares por onde andei
devagar dedicou-se, mas
o acaso a se esconder
E agora o amanhã, cadê?

Doce o mar, perdeu no meu cantar...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Não Acredito

Osmar Ludovico

Não acredito em respostas prontas estereotipadas e definitivas, mas em ser apenas um aprendiz, aprendendo sempre, num processo sem fim de aprender, desaprender e reaprender.
Não acredito em estratégias, modelos ou planos religiosos definidos e reproduzíveis, mas nas surpresas do dia-a-dia vivido na presença de Deus, no convívio familiar e comunitário.
Não acredito em projetos ministeriais importados e apostilados, mas no serviço simples, contínuo e discreto em favor dos pobres.
Não acredito em técnicas de evangelização, mas sim em pregar o Evangelho o tempo todo com a vida e, quando necessário, usar palavras.
Não acredito no barulho e na agitação, mas sim no recolhimento e no silêncio.
Não acredito em busca de poder religioso que alimente ambições pessoais, mas sim no poder que se aperfeiçoa nas minhas fraquezas.
Não acredito no que acontece sob os holofotes e é propagandeado, mas no imperceptível, no pequeno, no gesto simples do quotidiano.
Não acredito em lideranças personalistas, mas em servos anônimos que refletem a vida e o caráter de Cristo.
Não acredito num Evangelho explicativo, argumentativo, teórico, mas no Evangelho que me coloca em relação afetiva com Deus, comigo mesmo e com meu próximo.
Não acredito na linguagem da motivação e da auto-ajuda, mas na linguagem da intimidade que encontra espaço para afetividade e confidências.
Não acredito na teologia da prosperidade, mas numa teologia que gere quebrantamento, humildade, simplicidade e serviço desinteressado.
Não acredito em crentes bonzinhos e certinhos, mas em gente real que erra e se arrepende e não tem vergonha de se apresentar como pecador remido pelo sangue do Cordeiro.
Não acredito em oração que busca conforto pessoal, mas em oração que clama por santidade pessoal e engajamento por um mundo mais justo.
Não acredito em oração gritada em público com o intuito de chamar atenção sobre si, mas na oração no secreto onde ninguém vê e ninguém sabe.
Não acredito em testemunhos, livros e conversas de pessoas vitoriosas em tudo e que nunca erram, mas em pessoas reais que se alegram e se entristecem, têm virtudes e têm defeitos.
Não acredito em práticas religiosas produzidas pela mente humana, mas naquelas que são fruto de uma intimidade com Deus.
Não acredito em igrejas de classe média voltadas para si mesmas e sem visão social, mas naquelas cujos recursos humanos e financeiros são disponibilizados para missões e para os pobres.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Condicional

Quis nunca te perder
Tanto que demais
Via em tudo o céu
Fiz de tudo o cais
Dei-te pra ancorar
Doces deletérios

E quis ter os pés no chão
Tanto eu abri mão
Que hoje eu entendi
Sonho não se dá
É botão de flor
O sabor de fel
É de cortar.

Eu sei é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu, muito bem...

Quis nunca te ganhar
Tanto que forjei
Asas nos teus pés
Ondas pra levar
Deixo desvendar
Todos os mistérios.

Sei, tanto te soltei
Que você me quis
Em todo lugar
Lia em cada olhar
Quanta intenção
Eu vivia preso!

Eu sei, é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim.
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu
O que eu queria, o que eu fazia, o que mais,
Que alguma coisa a gente tem que amar, mas o quê?
Não sei mais!

Os dias que eu me vejo só são dias
Que eu me encontro mais e mesmo assim
Eu sei tão bem: existe alguém pra me libertar!


Rodrigo Amarante

domingo, 24 de outubro de 2010

O colapso do Movimento Evangélico

Ricardo Gondim


Dois pastores paulistas se fantasiam de Fred e Barney. Isso mesmo, fantasiados de Flintstone, entre gracejos ridículos, acreditam que estão sendo "usados por Deus para salvar almas". Na rádio, um apóstolo ordena que tragam todos os defuntos daquele dia, pois ele sente que Deus o "ungiu para ressuscitar mortos".

Os jornais denunciam dois políticos de Minas Gerais, "eleitos por suas denominações para representar os interesses dos crentes", como suspeitos de assassinato. O rosário se alonga: oração para abençoar dinheiro de corrupção; prisão nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro, flagrante de missionários por tráfico de armas; conivência de pastores cariocas com chefões da cocaína .

Fica claro para qualquer leigo: O movimento Evangélico brasileiro se esboroa. O processo de falência, agudo, causa vexame. Alguns já nem identificam os evangélicos como protestantes. As pilastras que alicerçaram o protestantismo vêm sendo sistematicamente abaladas pelo segmento conhecido como neopentecostal. Como um trator de esteiras, o neopentecostalismo cresce passa por cima da história, descarta tradições e liturgias e se reinventa dentro das lógicas do mercado. É um novo fenômeno religioso.


É possível, sim, separá-lo como uma nova tendência. Sobram razões para afirmar-se que o neopentecostalismo deixou de ser protestante ou até mesmo evangélico.É uma nova religião. Uma religião simplória na resposta aos problemas nacionais, supersticiosa na prática espiritual, obscurantista na concepção de mundo, imediatista nas promessas irreais e guetoizada em seu diálogo cultural.


Mas a influência do neopentecostalismo já transbordou para o "mainstream" prostestante. O neopentecostalismo fermentou as igrejas consideradas históricas. Elas também se vêem obrigadas a explicar quase dominicalmente se aderiram ou não aos conceito mágicos das preces. Recentemente, uma igreja batista tradicional promoveu uma "Maratona de Oração pela Salvação de Filhos Desviados".

Pentecostais clássicos, como a Assembléia de Deus, estão tão saturados pela teologia neopentecostal que pastores, inadvertidamente, repetem jargões e prometem que a vida de um verdadeiro crente fica protegida dentro de engrenagens de causa-e-efeito. Os "ungidos" afirmam que sabem fazer "fluir as bênçãos de Deus". É comum ouvir de pregadores pentecostais que vão ensinar a "oração que move o braço de Deus”.

O Movimento Evangélico implode. Sua implosão é visceral. Distanciou-se de dois alicerces cristãos básicos, graça e fé. Ao afastar-se destes dois alicerces fundamentais do cristianismo, permitiu que se abrisse essa fenda histórica com a tradição apostólica.

1. A teologia da Graça

Desde a Reforma, protestantes e católicos passaram a trabalhar a Graça como pedra de arranque de um novo cristianismo. O texto bíblico, “o justo viverá da fé”, acendeu o rastilho de pólvora que alterou a cosmovisão herdada da Idade Média. A Graça impulsionou o cristianismo para tempos mais leves. Foi a Graça que acabou com a lógica retributiva que mostrava Deus como um bedel a exigir penitência. Devido a Graça entendeu-se que a sua ira não precisa ser contida. O cristianismo medieval fora infectado por um paganismo pessimista e, por isso, sobravam espertalhões vendendo relíquias e objetos milagrosos que, segundo a pregação, “ garantiam salvação e abriam as janelas da bênção celestial”.


Lutero, um monge agostiniano, portanto católico, percebeu que o amor de Deus não podia ser provocado por rito, prece, pagamento ou penitência. Graça, para Lutero, significava a iniciativa de Deus, constante, unilateral e gratuita, de permanecer simpático com a humanidade. Lutero intuiu que Deus não permanecia de braços cruzados, cenho franzido, à espera de que homens e mulheres o motivassem a amar. O monge escancarou: as indulgências eram um embuste. Assim, Lutero solapava o poder da igreja que se autoproclamava gerente dos favores divinos.


Passados tantos séculos, o movimento neopentecostal, responsável pelas maiores fatias de crescimento entre evangélicos, abandonou a pregação da Graça. (É preciso ressaltar, de passagem, que o conceito da Graça pode até constar em compêndios teológicos, mas não significa quase nada no dia-a-dia dos sujeitos religiosos).


Os neopentecostais retrocederam ao catolicismo medieval. É pre-moderna a religiosidade que estimula valer-se de amuletos “como ponto de contato para a fé”; fazerem-se votos financeiros para “abrir as portras do céu”; “pagar o preço” para alcançar as promessas de Deus. Desse modo, a magia espiritual da Idade Média se disfarçou de piedade. A prática da maioria dos crentes hoje se concentra em aprender a controlar o mundo sobrenatural. Qual o objetivo? Alcançar prosperidade ou resolver problemas existenciais.


2. A compreensão da Fé

“A Piedade Pervertida” (Grapho Editores) de Ricardo Quadros Gouvêa é um trabalho primoroso que explica a influência do fundamentalismo entre evangélicos.

“O louvorzão, assim como as vigílias e as reuniões de oração, e até mesmo o mais simples culto de domingo, muitas vezes não passam de um tipo de superstição que beira a feitiçaria, uma vez que ele é realizado com o intuito de ‘forçar’ uma ação benévola da parte de Deus, como se o culto e o louvor fossem um ‘sacrifício’, como os antigos sacrifícios pagãos. Neste caso, não temos mais liturgias, mas sim teurgias, nas quais procura-se manipular o poder de Deus” (p.28).

Ora, enquanto fé permanecer como uma “alavanca que move os céus”, as liturgias continuarão centradas na capacidade de tornar a oração mais eficaz. Antes dos neopentecostais, o Movimento Evangélico já se distanciara dos Místicos históricos que praticavam a oração com um exercício de contemplação e não como ferramenta de como tornar Deus mais útil.

Fé não é uma força que se projeta na direção do Eterno. Fé não desata os nós que impedem bênçãos. Fé é coragem de enfrentar a vida sem qualquer favor especial. Fé é confiança de que os valores de Cristo são suficientes no enfrentamento das contingências existenciais. Fé aposta no seguimento de Cristo; seguir a Cristo é um projeto de vida fascinante.

O neopentecostalismo ganhou visibilidade midiática, alastrou-se nas camadas populares e se tornou um movimento de massa. Por mais que os evangélicos conservadores não admitam, o neopentecostalismo passou a ser matriz de uma nova maneira de conceber as relações com o Divino.

A alternativa para o rolo compressor do neopentecostalismo só acontecerá quando houver coragem de romper com dogmatismos e com os anseios de resolver os problemas da vida pela magia.

O caminho parece longo, mas uma tênue luz já desponta no horizonte, e isso é animador.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Que verdade?

Escolhe pra mim? Decida por mim?
Por que tenho escolher?
Por que não posso optar por não escolher?
Não confio tanto em minhas “verdades”!
Será que aprendi bem a lição?
Não é fácil acreditar em verdades solitárias. É mais fácil confiar no que todo mundo diz.
Ainda que o barco afunde, é melhor que uma canoa. Olhando assim, parece melhor morrer junto do que viver sozinho. Não estou falando de solidão, estou falando de verdades e das verdades que todo mundo diz. Ainda que a voz do povo não seja realmente a voz de Deus, se não acredito nessas verdades, sou realmente um herege.
Às vezes sou tentado a crer que não existem verdades (ainda que isso também não seja verdade), e que existam apenas maiorias e minorias, a voz da multidão e o sussurro tímido e solitário. Apesar do calor e conforto da multidão, tenho compaixão pelo solitário.
Outras vezes me sinto eu mesmo o solitário e desamparado.
São poucos os que se preocupam com os solitários.
A multidão enfurecida passa depressa e acaba esmagando sem piedade, sempre em nome da verdade, e segue sempre adiante em direção a não sei onde.



Heber de Paula
20 de agosto de 2009

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

dias difíceis

O que está acontecendo comigo? Sinto-me tão fraco agora? O que faço?
Esse furacão vem devastando construções erguidas há anos.
Sem nenhuma piedade vem destruindo estruturas outrora tão sólidas quanto às montanhas. O pior disso tudo é que minha vida está entrelaçada nessas estruturas, nestas construções. Se elas caem, eu não posso permanecer firme, por isso, me sinto desajustado, vulnerável, instável, perdido, confuso, indefinido... Quem poderia me ajudar nesta situação?
Onde está minha casa, onde eu guardava tudo o que precisava? Procuro o que preciso e não encontro. Onde está o meu quarto onde podia deitar e descansar, olhar o céu pela janela. Não há céu nem janela mais. Não há mais casa, nem quintal, não há nada nem lugar onde eu possa me sentir em casa. Incrível, nunca me senti assim. Em lugar nenhum, é justamente assim que me sinto, em lugar nenhum.
Pensando bem, é pior que isso. Sinto-me em terreno inimigo. Esse lugar não é nada amistoso. Meus companheiros são abatidos diariamente, volta e meia tenho que carregar um ferido quase morto, nas costas, ate que ele chegue onde possa ser tratado.
Os piores inimigos usam os mesmos uniformes que eu, assim fica difícil. Também sou alvejado o tempo todo, a dor é quase insuportável, me sinto muito fraco.
Sinto-me em país estrangeiro. Parece que não falo a mesma língua que eles. Também não quero falar essa língua nunca, não quero aprender por mais fácil que pareça. Não entendem os que fazem, entendem sim, os que falam como se faz, os que falam que fazem, os que falam, falam e falam. Essa língua é falsa, pois não reflete a realidade.
Sinto-me no Ártico. É tão frio aqui, ninguém sente nada. A indiferença é o sentimento mais comum. Não sentem quando pisam, estão dormentes e endurecidos pelo frio.
Sinto-me estranho, longe, mal, só, enfermo, cansado... Sem esperança...
20/09/2010 Heber de Paula Pereira

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Onde foi parar o lugar que eu sentia?

Heber de Paula Pereira
Sinto saudades do tempo em que morava com Deus, quando acordava ele vinha ate a minha cama, sorria para mim e dizia o quanto me amava.
Sinto saudades de suas mãos em minhas mãos me erguendo da cama e me abraçando. Seu cheiro é único e inconfundível, não há nada semelhante no mundo. O carinho com que tocava meu rosto, o jeito de olhar e ver toda a minha admiração, enquanto me olhava não conseguia pensar em nada. Seus olhos transbordavam amor e compaixão como se ali fosse a fonte disso tudo.
Ah, aquelas manhãs na casa de Deus jamais esquecerei, como sinto falta daquele lugar agradável, onde o tempo não existe, onde nunca estou só.
Onde fica esse lugar? Onde fica pra que eu volte correndo pra lá e nunca mais me afaste? A saudade é um buraco no meu peito que sempre dói. Sinto-me tão longe agora, e tão só também. Aquela casa tão colorida, tão cheirosa e cheia de abraços. Preciso voltar correndo. Mas uma coisa me impede. Pra morar lá tenho que ser criança. Tenho que deixar pra traz as tolices de adulto. Tenho que esquecer tudo que sei e voltar a brincar. Brincar no chão, na chuva, na terra. Brincar com carrinhos e bola, subir em árvores, e sorrir no embalo do balanço, brincar como se não existisse amanhã, como se hoje fosse o único dia. Tenho que deitar no chão da casa e ficar olhando pra cima ouvindo a musica que está tocando. Pra morar nesse lugar tenho que deixar de fazer planos, de me preocupar com o que vou comer, vestir...
Onde está? Onde foi parar o lugar que eu sentia?

quarta-feira, 19 de maio de 2010

É Proibido Pensar
João Alexandre

Procuro alguém pra resolver meu problema
Pois não consigo me encaixar neste esquema
São sempre variações do mesmo tema
Meras repetições

A extravagâncias vem de todos os lados
E faz chover profetas apaixonados
Morrendo em pé rompendo a fé dos cansados
Com suas canções

Estar de bem com vida é muito mais que renascer
Deus já me deu sua palavra
E é por ela que ainda guio o meu viver

Reconstruindo o que Jesus derrubou
Re-costurando o véu que a cruz já rasgou
Ressuscitando a lei pisando na graça
Negociando com Deus

No show da fé milagre é tão natural
Que até pregar com a mesma voz é normal
Nesse evangeliquês universal
Se apossando do céus

Estão distantes do trono, caçadores de deus
Ao som de um shofar
E mais um ídolo importado dita as regras
Pra nos escravizar.

É proibido pensar.

domingo, 28 de março de 2010

O filão religioso

Ricardo Gondim

As Casas Bahia disputam o mesmo mercado que a Magazine Luiza. As duas lojas se engalfinham para abocanhar o filão dos eletrodomésticos, guarda-roupas de madeira aglomerada e camas de esponja fina. Buscam conquistar assalariados, serralheiros, aposentados e garis. Em seus comercias, o preço da geladeira aparece em caracteres pequenos, enquanto o valor da prestação explode gigante na tela da televisão. A patuléia calcula. Não importa o número de meses, se couber no orçamento, uma das duas, Bahia ou Luiza, fecha o negócio - o juro embutido deve ser um dos maiores do mundo.
Toda noite, entre oito e dez horas, a mesma lengalenga se repete nos programas evangélicos. Pelo menos quatro “ministérios” concorrem em outro mercado: o religioso. Todos caçam clientes que sustentem, em ordem de prioridade, os empreendimentos expansionistas, as ilusões messiânicas e o estilo de vida nababesco dos líderes. Assim, cada programa oferece milagres e todos calçam suas promessas com testemunhos de gente que jura ter sido brindada pelo divino. Deus lhes teria abençoado com uma vida sem sufoco. Infelizmente, o preço do produto religioso nunca é explicitado. Alardeia-se apenas a espetacular maravilha.
Considerando que a rádio também divulga prodígios a granel, como um cliente religioso pode optar? Para preferir uma igreja, precisa distinguir sobre qual missionário, apóstolo, pastor ou evangelista, Deus apontou o dedo. E se tiver uma filha com leucemia aguda, não pode errar. Ao apelar para uma igreja com pouco poder, perde a filha.
O correto seria freqüentar todas. Mas como? Em nenhuma dessas igrejas televisivas o milagre é gratuito ou instantâneo. As letrinhas, que não aparecem na parte de baixo do vídeo, afirmariam que, por mais “ungido” que for o missionário, um monte de exigência vem embutida na promessa da bênção. É preciso ser constante nos cultos por várias semanas, contribuir financeiramente para que a obra de Deus continue e, ainda, manter-se corretíssimo. Um deslize mínimo impede o Todo Poderoso de operar; qualquer dúvida é considerada uma falta de fé, que mata a possibilidade do milagre.
Lojas de eletrodoméstico vendem eletrodoméstico, óbvio. Igrejas evangélicas comercializam a idéia de que agenciam o favor divino com exclusividade. E por esse serviço, cobram caro, muito caro. Afinal de contas, um produto celestial não pode ser considerado de quarta categoria. A "Brastemp" espiritual que os teleevangelistas oferecem vem do céu.
O acesso ao milagre se complica, porque todos mercadejam o mesmo produto. Os critérios de escolha se reduzem a prazo de entrega, conforto e garantia.
Opa, quase esqueci! As lojas, em conformidade com o Código do Consumidor, são obrigadas a dar garantia, mas as igrejas evangélicas não dão garantia alguma. O cliente nunca tem razão. Quando a filha morrer de leucemia, o pai, além de enlutado, será responsabilizado pela perda. Vai ter que escutar que a menina morreu porque ele “deu brecha” para o diabo, não foi fiel ou não teve fé.
Mercadologicamente, Casas Bahia e Magazine Luiza estão bem à frente das igrejas. Melhor assim, geladeira nova é bem mais útil do que a ilusão do milagre.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Meu compromisso com a vida

Ricardo Gondim


Olho para o passado com lascas de nostalgia e pontas de melancolia. Caminhos que nunca trilhei hoje parecem bem mais fáceis. Amores que exigiram coragem voltam a me seduzir para me deixar ainda mais triste. Aventuras que nasceram de narcisismos e falsas onipotências reclamam explicações; como justificar tanto delírio? Não, não pretendo remontar passado. Desisto de qualquer tentativa de ressuscitar o que jaz sob o lajeado da decepção.


Para refazer meu compromisso com a vida, abandono o rigor de um humanismo idolátrico. Não idealizo as iniciativas ideológicas. Sei que toda instituição convive com o germe de sua própria inutilidade. Também não me prostro no altar do niilismo; descreio da capacidade humana de erguer-se pelos próprios cadarços. Meu existencialismo é frágil, carregado de suspeita. Minha religião, cheia de decepção. Minha ideologia agoniza debaixo dos escombros da modernidade.

Para refazer meu compromisso com a vida, largo na beira da calçada as metas-narrativas. Desconfio dos projetos globais. Incoerência entre discurso e prática me desesperam. A incapacidade de vertebrar o que acredito de coração me enoja. Criei cismas. Rio por dentro; é meu jeito de sobreviver aos ufanismos que tanto me irritavam no passado. Sei que preciso aniquilar os fantasmas que me deixaram com a sensação de ser um deus.

Para refazer meu compromisso com a vida, desisto de tentar levar a ferro e a fogo qualquer coisa. Erros me fizeram bem. Boas ações me arruinaram. Amigos me entristeceram. Desconhecidos me acolheram. Quando planejei, empaquei. Por outro lado, inesperadamente a vida deu certo sem planejamento. Sofri também com pecados. Paguei um alto preço por ser indolente. Mas, incrível, quando deixei para o dia seguinte o que deveria fazer hoje, foi bom.

Para refazer meu compromisso com a vida, quero ser leve como a pluma que escapou da asa do cisne, denso como o ruço que cobre a madrugada, escuro como a noite tropical sem lua, e transparente como o mar do Mediterrâneo. Hei de aprender a não discursar. Almejo ser mais enfático mas só em ternura; mais brando em afirmações. Pretendo rearrumar minha oratória. Quero voltar a olhar para o nada, como as crianças; a entrecortar frases com longas pausas, como os monges; a ritualizar os instantes, como os namorados.

Para refazer meu compromisso com a vida, espero envelhecer sem casmurrice. Acolher as doidices dos jovens, lembrando de como as minhas faziam sentido. Celebrar cada manhã como uma ressurreição. Aguardar o pôr-do-sol como uma grávida anseia pelo primeiro choro do filho. Plácido como um lago entre duas montanhas, espero encarar a morte. E que não reste nenhuma nesga de frustração em minha alma. E que eu descanse no sábado final com um sorriso maroto, sorriso de quem foi embora dizendo: valeu viver.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Em busca de lágrimas absolutas

Ricardo Gondim

Minhas antigas amizades se dissolvem como bolhas de sabão. Esqueci nomes. Mal consigo lembrar os olhos de quem já passou por minha vida. O passado diluiu momentos que poderiam torná-los familiares. Fiz-me irmão, e doei-me inteiramente a companheiros, mas hoje hesito. Desconfiado, reparto pedaços do coração. Não suporto imaginar a dor de outras separações, de mais decepções.
Tenho medo de abrir os porões da alma. A desarrumação de minha casa faz sentido para mim. O que os outros consideram bagunça, tem uma sincronicidade própria, que me deixa em paz. Vacilo em rasgar os envelopes selados, onde escondo segredos. Sei detectar os traumas que me deixaram chorão, os complexos que me deram olhos melosos, as circunstâncias que me fizeram viver à beira do pranto, as fragilidades que me transformaram em tímido. Mas não pretendo explicar nada a ninguém.
Tornei-me cauteloso quando brinco e rio. Fujo dos que procuram analisar a minha felicidade; ela não carece de julgamentos. O riso que meus lábios desenham não tem que ser explicado. Introjeto a alegria para que não seja pisoteada como a pérola da parábola. Prezo em não deixar vazar frágeis contentamentos; a pouca riqueza que amealhei merece ser guardada debaixo de mil segredos.
Olho para colegas e antecipo navalhadas. Resguardo as costas dos estiletes da inveja. Assusto-me. As maldades que já sofri são parecidas com as que eu próprio já acalentei no peito. Se não sei explicar o porquê de atitudes mesquinhas em mim, também não justifico a estreiteza que observo no próximo. Não sou pior nem melhor que os demais. Por isso, cerco o quintal de casa contra lobos ferozes. Sempre espero alguém ávido para destruir o pedacinho da dignidade que me resta.
Meus desalentos não serão rasos. Desço às regiões abissais da angústia. Envolvo-me na absoluta escuridão da casmurrice; que o lençol do desgosto me isole. Quero ficar na quarentena dos tristes. E provar a verdade de que “são bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Quero acreditar. Você acredita?

Heber de Paula Pareira
Não quero duvidar de nada, quero acreditar em tudo, quero confiar em todos, quero iludir-me, me enganar e não saber jamais sobre a verdade. Não quero pensar que tudo pode ser uma grande mentira. Não, eu não quero pensar na possibilidade de que estou sendo enganado. Quero confiar que tudo é como me dizem. Não é possível que haja mentiras. É impossível que alguém minta para mim. Diga-me o que quiseres, prometo, eu vou acreditar por mais absurdo que pareça. Vou fechar meus olhos e acreditar somente, vou sorrir e confiar. Vou acreditar que você me ama. Vou acreditar sempre, mesmo que as circunstâncias me provem o contrário eu vou acreditar em você. Tenho certeza, no mundo só há verdades. Todas as pessoas são boas, cheias de boas intenções. O amor brilha em cada olhar, por isso confio em todos. Todo o mundo me quer bem. É facil ver isso. Ninguém quer me enganar, ninguém quer prejudicar-me. Não há nesse mundo aproveitadores, não há covardes, não há assassinos, ladrões, desonestos, mentirosos, invejosos, difamadores, nada disso existe nesse mundo maravilhoso. Posso passear pelas praças a qualquer hora do dia, posso andar pelas ruas até altas horas da noite. Sempre haverá uma boa companhia para andar um pouco comigo, um bom amigo para conversar. Não preciso ficar vigiando minha bolça ou minha bicicleta pois ela vai estar bem aonde eu deixei me esperando para dar mais uma volta. Posso dormir com a janela do meu quarto aberta, é tão bom porque sempre entra um vento frio de madrugada me obrigando a cobrir meu corpo. Joguei as chaves fora, não preciso trancar as portas. Todo mundo que chega é bem vindo, são todos amigos e irmãos. É muito bom acreditar em todos e em tudo.
A verdade é cruel, não alivia nunca. Vem moendo tudo quanto é sentimento. Ela não conhece nomes, todos são iguais perante ela. Não há homem ou mulher, não há crianças nem velhos, ricos ou pobres, feio ou bonito. Todo mundo está nú frente a verdade. Parece constrangedor ficar assim, não dá para acreditar em alguém tão severo quanto a verdade. Tão inflexível que machuca. Quebra qualquer argumento.
A mentira é mais compreensiva, maleável, simpática até. Sempre dá o seu "jeitinho". A mentira tenta exaustivamente tornar as coisas melhores. Não quer causar dor, nem desconfianças. Não quer mostrar a maldade de ninguém, nem os defeitos por isso todos são perfeitos. Posso acreditar em todo mundo. Com a verdade não há isso, "pau é pau e pedra é pedra" e só, quer gostem ou não. A verdade não tenta agradar ninguém, ela só quer mostrar a realidade por mais dolorosa que seja. Por que a verdade é assim tão fria e dolorosa? Ela devia pensar um pouco mais nas pessoas, afinal, as pessoas tem sentimentos! Ou será que quem deveria pensar mais nas pessoas é a mentira? Será que a verdade só é assim por causa da mentira? E se não existissem mentiras? Será que posso fazer esse tipo de pergunta sem ofender a mentira? Afinal, ela faz tanto pelas pessoas, ela dá tantas voltas para não ofender ou machucar alguém! Ela é tão boazinha, não posso pensar assim. Isso é coisa da verdade, a verdade não se importa em ferir desde que ela esteja na história.
Por isso quero confiar em todos, quero acreditar em todo mundo.
Será possível estar acima da verdade ou da mentira? Vai saber...